sexta-feira, 11 de maio de 2007

Jesus, do nascimento aos 33 anos

André Lazzarini
(1ª Parte)
Maria, Santa predestinada desde seu nascimento, foi agraciada com a visita do anjo Gabriel que, em sua santa mensagem, comunicou-lhe que fora a escolhida do Senhor. Ela não titubeou um instante sequer: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua palavra.” (Lc 1,38). Jesus nasceu do ventre da Virgem Maria, e, conforme já havia sido antecipado, foi reconhecido como o Cristo por onde passou, desde seu nascimento, testemunhado pelos pastores que receberam a visita dos anjos do Senhor e anunciaram o nascimento do Salvador até seus últimos dias.

Temos que, já no dia da apresentação de Jesus no templo, como era costume e seguindo a Lei de Moisés (Lc 2,22), apareceu Simeão, que já tinha recebido a visita do Espírito Santo que lhe revelou que ele não morreria sem conhecer o Cristo do Senhor. E assim, impelido pelo Espírito Santo, a ir ao templo: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. Porque meus olhos viram a vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações e para a glória de vosso povo de Israel. (...) Eis que esse menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma.” (Lc 2, 29-32, 34-35).

Assim Jesus, sendo esperado por muitos, foi apenas reconhecido e aceito por alguns. Viveu uma infância normal, aprendendo tudo o que lhe ensinavam à época. Aos cinco anos, Jesus começou a freqüentar, como todos os meninos de Israel, a Beth ha sefer, uma instituição docente equivalente as nossas escolas primárias, que dependia da sinagoga. Assim, teve suas lições escolares, e juntamente, religiosas. Aprendeu orações e rezava-as sozinho ou na oficina, junto de seus pais. Durante o dia, ao anoitecer, em voz alta, rezando e crescendo em sua religiosidade.

Sua inteligência para os ensinamentos do Senhor era superior, como podemos ver na sua primeira demonstração, aos doze anos, quando seus pais, ao voltar das celebrações da Páscoa de Jerusalém, perderam-se Dele, mas, achando que Ele estava junto de seus companheiros de comitiva, andaram um dia em seu caminho. Ao saírem para procura-Lo, perceberam que ele havia ficado em Jerusalém. Somente o encontraram três dias depois, no templo, falando aos doutores, todos maravilhados com seus conhecimentos, quando respondeu à ansiedade de seus pais: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu pai?” (Lc 2, 49-51). (publicado na Folha de Londrina, 21/05/2007, página 02)

(2ª Parte)
“A iniciativa e a consumação só a Deus pertencem. Ele organiza as bodas e sai pelos caminhos fazendo convites (Lc 15,3-7). Onde e quando vai se apagar o fogo da humanidade? Só Deus sabe a hora exata (Mc 13,32). Simão, você falou bem, mas não foi por instinto nem por sua natural sagacidade. Foi inspiração do Alto (Mt 16,16). Se cressem, veriam prodígios: saltando como um cabritinho esse morro iria até o mar; daquele pinheiro nasceriam as asa como as de uma águia, que o levariam voando para outros continentes, para firmar lá as suas raízes (Lc 17,6)”.

Sua juventude fora simples e normal como qualquer jovem trabalhador, ajudante de seu pai na oficina e presente na vida de sua mãe, até sua vida adulta. Sua “Santidade”, seu amor pelo Pai e seu saber para tecer seus ensinamentos não aconteceu numa só noite. “Foi um longo caminhar através de vários anos, como em tudo que é humano. O Jovem foi avançando de sol a sol, noite após noite, mar adentro, cada vez mais longe, na rota ascendente que leva ao alto manancial do Amor, o Pai” (Ignácio Larrañaga em “O Pobre de Nazaré” – ed. Loyola, 8ª ed., p.36).

A maior prova da vida simples de Jesus é que o Novo Testamento relata a surpresa dos cidadãos de Nazaré quando Ele vai a essa cidade proclamando as Boas Novas do Senhor ("não é esse o filho do carpinteiro José?" Lc 4,22). Se Ele tivesse ido para qualquer lugar que fosse, para estudar outras ciências, os cidadãos de Nazaré não iriam achar estranho o fato de Ele querer aparecer como um profeta, anos mais tarde.

Jesus, batizado por João, não o conhecera na sua juventude. Como poderia, já que suas mães eram aparentadas? Segundo Ignácio de Larrañaga, João, que fora concebido na velhice de Isabel, deve ter ficado órfão com pouca idade e diz-se que seus parentes próximos devem tê-lo levado ao deserto quando ainda era novo. Tal “deserto” supõe-se ser o Mosteiro de Qumram, situado no deserto de Judá, habitado pelos essênios. Estes, por sua vez, eram desligados de Jerusalém e tinham seus próprios costumes religiosos, no intuito de conservarem e restaurarem a santidade do povo num âmbito mais reduzido, o de sua própria comunidade. O costume do isolamento em regiões desérticas desse povo, tinha como objetivo a descontaminação derivada do contato com outras pessoas, de outras crenças e do mundo exterior à sua comunidade. A sua renúncia às relações comerciais não é um ideal de pobreza, mas sim para evitar essa contaminação. (fonte: http://www.opusdei.org.br/art.php?p=16286) Praticavam o batismo, que João deve ter aprendido no Mosteiro.

Isso justifica o desconhecimento de Jesus por João. Este sim, pode ter vivido com os essênios, e assim pode ter passado algum conhecimento do modo de vida dos essênios para Jesus, após se re-encontrarem. (Publicado na Folha de Londrina, 28/05/2007 - página 02)

(3ª Parte)
Não há como misturar o cristianismo e o budismo ou outras religiões e filosofias orientais, pois o cristianismo se destaca de todas as outras por diferenças fundamentais, ensinadas por Jesus nos evangelhos.

No Budismo, viver é sofrer, mas a solução para o sofrimento é a busca e a eliminação da fonte deste sofrimento; já no cristianismo a solução é transformar o sofrimento de forma que ele tome um novo significado: Cristo morreu na cruz e não acabou com o sofrimento, mas transformou-o em algo positivo, redentor. Para o cristão, a meta não é acabar com o sofrimento, mas abraçá-lo, dando-lhe um novo significado. O cristianismo é uma religião que leva as pessoas ao exterior, à caridade, ao passo que as religiões orientais levam as pessoas a se interiorizarem.

A idéia da reencarnação não tem lógica dentro do cristianismo: o cristianismo fala da existência do pecado original: a humanidade foi criada perfeita e em completa harmonia com Deus. Só que um pecado fez com que se quebrasse essa harmonia. Para Deus, nós herdaríamos as características que nossos primeiros pais tinham quando foram concebidos, mas como houve o pecado, acabamos por herdar uma desordem (veja: no intelecto estamos confusos; na vontade temos dificuldade de fazer o bem mesmo quando sabemos o que deve ser feito; e nas paixões estamos descontrolados principalmente no que diz respeito à luxúria e à ira).

Ademais, no cristianismo não há lógica a “purificação” a cada encarnação para chegar à santidade. Essa idéia não tem sentido porque ninguém aprende com um castigo dado em decorrência de um erro que não se tem consciência ou conhecimento de ter cometido. Acreditar que as pessoas pagam com seu sofrimento atual, erros cometidos por vidas passadas, leva-me a ignorar o sofrimento do próximo, já que ele está passando (ou pagando) por aquilo que é somente dele, assim nada posso fazer por ele, levando ao pensamento egoísta e diametralmente oposto ao principal ensinamento de Cristo: “amai-vos uns aos outros” (João 13,34-35). A idéia da reencarnação é muito mais facilmente assimilável para todos e mais atraente do que a do pecado original, mas se analisarmos a conseqüência de se acreditar em uma e outra, a conclusão é que a última é muito mais positiva e verdadeira, pois a primeira pode dar margem até mesmo para crueldades. Além do mais, Deus é amor, Deus não castiga, Deus perdoa, e Deus nos aceita como somos, e nos receberá desde que nós nos arrependamos de nossos pecados na certeza de não voltar a cometê-los e seguir seus ensinamentos, procurando imitá-lo em nosso modo de vida, dentro das nossas limitações e da nossa imperfeição. (fonte de algumas informações: Peter Kreeft – filósofo americano, católico, muito respeitado, professor da Boston College).

(4ª Parte)
Existe ainda um ponto a diferenciar o cristianismo das tradições orientais: estas são panteístas – acreditam que deus está em tudo (deus é tudo). Assim, não existe contradição entre bem e mal, já que deus é o bem e também é o mal. No cristianismo: Deus está separado das coisas, de forma que o mal foi introduzido por outras criaturas e não por Deus. A idéia também de céu e inferno pertence ao cristianismo (podemos encontrar inúmeras passagens nos Evangelhos), e não se encontra nas filosofias orientais.

O celibato não é invenção dos homens. No Evangelho segundo Mateus 19,12, Jesus disse: “Há eunucos que nasceram assim, desde o ventre materno. E há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem tiver capacidade para compreender, compreenda!”

Todas essas informações foram pesquisadas nas escrituras sagradas e em livros de autores aceitos pela Santa Sé e que regem o cristianismo da Igreja Católica. E não poderia ser diferente. Se eu sou Católico, aonde procurarei minha fonte de informação para enriquecer meus conhecimentos cristãos? Nos escritos achados em qualquer canto? Com escritores não cristãos? Em publicações fantásticas e super-interessantes encontradas na banca de revistas mais próxima? Com escritores que se dizem cristãos, mas que não seguem a orientação da Santa Igreja?

Deixemos de ser cegos para enxergar a verdade onde ela realmente está; deixemos de procurar falsas verdades para justificar nossos atos humanos e imperfeitos, contrários aos ensinamentos do Senhor; deixemos de procurar qualquer verdade fora do caminho Santo, somente para facilitar a vida, justificando uma vida sem virtudes, cheia de valores materiais e pobres em valores morais.

Devemos abrir os olhos de nossa inteligência e principalmente de nosso coração para deixar a verdade divina penetrar em nosso ser e permitir que a fé verdadeira desenvolva as maravilhas do Senhor dentro de nossas vidas.

O livre-arbítrio é dado a todos. Temos a inteligência como um presente de Deus e um dom do Espírito Santo. Podemos usá-la para o bem ou para qualquer outro fim. A decisão é sua. Se eu quiser ser fiel ao Deus Pai, sei o caminho que tenho que seguir: a Santa Igreja. Posso me rebelar contra ela e seguir o caminho que bem entender, afinal sou livre para tal. Mas minha fé crê verdadeiramente em Deus Pai, Todo Poderoso, que é o criador do céu e da terra; também em Jesus Cristo, seu único filho e Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria; padeceu sob Pôncio Pilatos; foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus e está sentado a direita de Deus Pai Todo Poderoso, donde há de vir há julgar os vivos e os mortos. A minha fé também me ensina a crer na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e também na vida eterna! Amém.

Um caminho para recuperar fiéis

André Lazzarini
Eu não entendo o porquê da preocupação que seguidores de outras religiões e seitas têm com os pensamentos e discursos do Santo Papa. Cada um que siga seu líder espiritual... embora seja desejo dos católicos que todas as pessoas percebam o verdadeiro caminho Cristão dentro do catolicismo. Aceitando que o Papa é o sucessor do Apóstolo Pedro e que a Igreja, assim como o Paraíso Divino é obra de Deus e não democracia e nem ditadura (invenção do homem), os católicos devem limitar-se a ouvir, debater, e enfim obedecer. Aos não católicos, cabe a sua livre decisão de qual caminho seguir, já que o livre-arbítrio foi dado aos homens desde a sua criação. Mas jamais dizer o que o Papa deve ou não fazer.

O Catolicismo não se cansa de, através do Papa, pedir ecumenicamente que a humanidade que se oriente pela mensagem de Jesus: viva o amor ao próximo, proteja a vida a todo instante e em qualquer situação, compreenda as pessoas, seja humilde, persiga incansavelmente o caminho da paz entre os povos. O Papa, sempre iluminado pelo Espírito Santo em suas falas, nunca profere palavras que não sejam de paz e compreensão. Infelizmente vemos o insano desejo de agredir o Papa – assim como foi feito com Jesus – o que é fato notório nas distorções de suas palavras e suas idéias pelas nas publicações mundo afora. Interpretações capciosas são dadas a todo o momento. Se alguém quiser ler na íntegra, sem contaminações, os dizeres do Papa, as suas homilias e seus discursos, sugiro que procurem fontes confiáveis, sempre ligadas ao Vaticano ou à alguma instituição Católica.

O homem, portador de liberdade plena, procura a todo instante justificar suas atitudes. É normal que, dentro desse modo de pensar, procure todos os caminhos que justifiquem seu modo de vida, suas ações da forma como bem lhe convier. Seguir os ensinamentos de Jesus, através da Igreja Católica deixada por Ele para nós, é algo deveras difícil (humanamente falando), pois necessita que o homem escolha, por sua livre e espontânea decisão, um caminho de fé, de amor, de paz, de simplicidade, e de humildade ao se dobrar perante nosso Deus, louvando-o e idolatrando-o. Esse caminho é difícil, pois o mundo atual é contaminado por impurezas que atentam contra o Cristianismo (não só o Catolicismo). E nem todas as pessoas estão dispostas a se sacrificar para ter uma vida Cristã reta e direita, e muito menos encarar um sacrifício infinitesimamente menor como Jesus se enfrentou. Ele acabou na cruz... alguém estaria disposto à esse fim também?

É mentira dizer que a Igreja Católica amedronta seus fiéis com idéias de demônios e de penosos castigos divinos. Deus não castiga. Deus é amor, Deus é perdão, Deus é pacificador: para viver Suas graças, basta que você se reconheça como pecador e seja humilde redimindo-se perante Ele. Amedrontador é dizer que tudo o que passamos nessa vida é um preço que pagamos por pecados cometidos em outras encarnações e que teremos que nos re-encarnar muitas vezes mais para podermos nos santificar. Deus que me livre desse sofrimento!

Eu diria que o caminho para recuperar fiéis passa antes pelo caminho de um auto-exame pessoal: as pessoas perceberem seu modo de vida, suas atitudes e seus pensamentos: se eles seriam ou não a vontade de Cristo para nós. Quando se derem conta disso, enxergarão claramente a verdade nos ensinamentos de Cristo que são o caminho próprio da Igreja Católica.



Publicado na Folha de Londrina - 11/05/2007 - página 02

sábado, 7 de abril de 2007

Homilia de Bento XVI na Quinta-Feira Santa - 05/04/2007

Caros irmãos e irmãs,


Na leitura do Livro do Êxodo, que há pouco escutamos, vem descrita a celebração da Páscoa de Israel, como era regulamentada na lei mosaica. Na origem poderia ser uma festa de primavera dos nômades. Para Israel, todavia, ela foi transformada em uma festa de comemoração, de ação de graças e, ao mesmo tempo, de esperança. No centro da ceia pascal, ordenada segundo determinadas regras litúrgicas, estava o cordeiro como símbolo da libertação da escravidão no Egito. Por isso o haggadah pascal era parte integrante da refeição à base de cordeiro: a lembrança narrativa do fato de que foi o próprio Deus quem libertou Israel «com a mão levantada». Ele, o Deus misterioso e oculto, revelou-se mais forte que o faraó com todo o poder que tinha à sua disposição. Israel não devia se esquecer que Deus tinha pessoalmente levado nas mãos a história de seu povo e que esta história era continuamente baseada na comunhão com Deus. Israel não devia esquecer-se de Deus.
A palavra da comemoração era circundada pela palavra de louvor e de ação de graças trazida pelos Salmos. O agradecer e bendizer a Deus tinha seu cume na berakha, que em grego é dita eulogia ou eucaristia : o bendizer a Deus se torna bênção para aquele que o bendiz. A oferta doada a Deus retorna abençoada ao homem. Tudo isso erguia uma ponte do passado ao presente e frente ao futuro: ainda não estava completa a libertação de Israel. A nação ainda sofria como pequeno povo no campo das tensões entre as grandes potências. O fato de lembrar com gratidão o agir de Deus no passado torna assim, ao mesmo tempo, súplica e esperança: leva a cumprimento o que foi iniciado! Dá-nos a liberdade definitiva!
Esta ceia com múltiplos significados foi celebrada por Jesus com os seus na tarde antes de sua Paixão. Como base, neste contexto devemos compreender a nova Páscoa, que Ele nos deu na Santa Eucaristia. Nos relatos dos evangelistas existe uma aparente contradição entre o Evangelho de João, por um lado, e o que, por outro, nos comunicam Mateus, Marcos e Lucas. Segundo João, Jesus morre sobre a cruz precisamente no momento no qual, no templo, eram imolados os cordeiros pascais. A sua morte e o sacrifício dos cordeiros coincidem. Isso significa, porém, que Ele morreu na Vigília da Páscoa e, portanto, não pôde pessoalmente celebrar a ceia pascal -- isso, ao menos, é o que parece. Segundo os três Evangelhos sinóticos, ao contrário, a Última Ceia de Jesus foi uma ceia pascal, em forma tradicional. Ele insere a novidade do dom de seu corpo e de seu sangue. Esta contradição até alguns anos atrás parecia insolúvel. A maioria dos exegetas era da opinião que João não quis comunicar-nos a verdadeira data histórica da morte de Jesus, mas preferiu uma data simbólica para tornar assim evidente a verdade mais profunda: Jesus é o novo e verdadeiro cordeiro que derramou seu sangue por todos nós.
A descoberta dos escritos de Qumran nos conduziu, entretanto, a uma possível solução convincente que, ainda que não seja aceita por todos, possui, todavia, um alto grau de probabilidade. Podemos agora dizer que o que João relatou é historicamente preciso. Jesus realmente derramou seu sangue na vigília da Páscoa, na hora da imolação dos cordeiros. Ele, porém, celebrou a Páscoa com seus discípulos provavelmente segundo o calendário de Qumran, pelo menos um dia antes --celebrou-a sem cordeiro, como a comunidade de Qumran, que não reconhecia o templo de Herodes e estava à espera de um novo templo. Jesus, portanto, celebrou a Páscoa sem cordeiro -- não, não sem cordeiro: no lugar do cordeiro deu-se a si mesmo, seu corpo e seu sangue. Assim, antecipou sua morte de modo coerente com sua palavra: «Ninguém me tira a vida, mas a ofereço por mim mesmo» (Jo 10, 18). No momento no qual apresentava aos discípulos seu corpo e seu sangue, Ele dava real cumprimento a esta afirmação. Ele mesmo ofereceu sua vida. Só assim a antiga Páscoa obtinha seu verdadeiro sentido.
São João Crisóstomo, em sua catequese eucarística, escreveu uma vez: O que está dizendo Moisés? O sangue de um cordeiro purifica o homem? Salva-o da morte? Como pode o sangue de um animal purificar o homem, salvar o homem, ter poder contra a morte? De fato -- continua Crisóstomo -- o cordeiro podia constituir só um gesto simbólico e, portanto, a expressão da espera e da esperança em Alguém que pode cumprir isso que o sacrifício de um animal não era capaz. Jesus celebrou a Páscoa sem cordeiro e sem templo e, todavia, não sem cordeiro e sem templo. Ele mesmo era o Cordeiro esperado, verdadeiro, como havia preanunciado João Batista no início do ministério público de Jesus: «Eis o cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo!» (Jo 1, 29). E é Ele mesmo o verdadeiro templo, o templo vivente, no qual habita Deus e no qual nós podemos encontrar Deus e adorá-lo. Seu sangue, o amor Daquele que é ao mesmo tempo Filho de Deus e verdadeiro homem, um de nós, cujo sangue pode salvar. Seu amor, aquele amor no qual Ele se doa livremente por nós, é isso que nos salva. O gesto nostálgico, de qualquer modo privado de eficácia, que era a imolação do inocente e imaculado cordeiro, encontrou resposta naquele que por nós se tornou juntamente Cordeiro e Templo.
Assim, no centro da nova Páscoa de Jesus estava a cruz. Desta vinha o novo dom trazido por Ele. E assim, ela permanece sempre na Santa Eucaristia, na qual podemos celebrar com os Apóstolos, através dos tempos, a nova Páscoa. Da cruz de Cristo vem o dom. «Ninguém me tira a vida, mas eu a ofereço por mim mesmo». Agora Ele a oferece a nós. A haggadah pascal, a comemoração do agir salvífico de Deus, tornou-se memória da cruz e ressurreição de Cristo -- uma memória que não recorda simplesmente o passado, mas nos permite entrar na presença do amor de Cristo. E assim a berakha, a oração de bênção e ação de graças de Israel torna-se nossa celebração eucarística, na qual o Senhor abençoa os nossos dons -- pão e vinho -- para doar neles a si mesmo.
Peçamos ao Senhor que nos ajude a compreender sempre mais profundamente este mistério maravilhoso, a amá-lo sempre mais e nisso amar sempre mais Ele mesmo. Peçamos-lhe que nos ajude a não reter nossa vida para nós mesmos, mas a doá-la a Ele e assim atuar junto a Ele, a fim de que os homens encontrem a vida -- a vida verdadeira que pode vir só d'Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Amém.
[Traduzido por Zenit © Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana]
ZP07040506







Só o sangue de Jesus podia salvar-nos, explica Papa na Quinta-Feira Santa

Surpreendente homilia na qual oferece novas hipóteses históricas sobre a Páscoa
Foi uma homilia surpreendente, na qual o Papa teólogo harmonizou momentos de meditação com as últimas investigações históricas realizadas sobre os manuscritos de Qumran, encontrados no Mar Morto em 1947, que ainda hoje são matéria de estudo e que oferecem novas hipóteses sobre a Páscoa.
Seu objetivo era mostrar a novidade introduzida pela Páscoa de Cristo na Páscoa judaica, na qual se imolava um cordeiro em recordação da libertação do povo escolhido da escravidão do Egito.
Com toda probabilidade, Jesus seguia o calendário que os essênios de Qumran observavam, seita rigorosa judaica em oposição ao poder sacerdotal de Jerusalém, que ainda em alguns aspectos continua sendo misteriosa para os historiadores, explicou o Santo Padre.
Segundo esta interpretação, «ainda não aceita por todos», como ele mesmo declarou, Jesus «celebrou a Páscoa com seus discípulos provavelmente segundo o calendário de Qumran, ou seja, ao menos um dia antes» da tradicional festa da Páscoa, «na hora da imolação dos cordeiros», como diz o evangelho de São João, algo que parecia contradizer a narração dos outros três evangelistas.
O cardeal Albert Vanhoye SJ, antigo reitor do Instituto Bíblico Pontifício de Roma, explicou que na época de Jesus, o calendário essênio era mais tradicional que o mais recente adotado pelos sacerdotes de Jerusalém, ainda que isso não significa que Jesus fazia parte dos essênios.
Isso implica, acrescentou Bento XVI, que Jesus celebrou a Páscoa «sem cordeiro, como a comunidade de Qumran, que não reconhecia o templo de Herodes e estava à espera do novo templo».
«Jesus celebrou a Páscoa sem cordeiro», ou melhor, declarou, «no lugar do cordeiro entregou a si mesmo, seu corpo e seu sangue».
O sangue dos cordeiros não pode salvar o homem, acrescentou o sucessor de Pedro. O sangue de Cristo, «o amor de quem é ao mesmo tempo Filho de Deus e verdadeiro homem, um de nós, esse sangue sim tem capacidade de salvar».
«Seu amor, esse amor no qual Ele se entrega livremente por nós, é o que nos salva».
Por este motivo, convidou os fiéis a pedirem o Cristo «que nos ajude a compreender cada vez mais profundamente este mistério maravilhoso e a amá-lo cada vez mais e, nele, a amar a Cristo cada vez mais».

«Peçamos-lhe que nos atraia com a santa comunhão cada vez mais para si mesmo», concluiu.
Bento XVI lavou, na missa na Ceia do Senhor, os pés de doze homens que representavam a associações de leigos da diocese de Roma nesta Quinta-Feira Santa.
Durante as oferendas, foi pedido a todos os presentes que fizessem um gesto de caridade pelo dispensário médico de Baidoa, na Somália, que em plena guerra atende aproximadamente 2.000 pacientes por mês.
ZP07040507

sexta-feira, 30 de março de 2007

Camelódromos, contrabandos, piratarias e afins

André Lazzarini
"Atire a primeira pedra aquele quenão for pecador".
É verdade. Todos somos pecadores... assim, todos temos alguma culpa no crescimento dessa praga. Seja uma culpona ou uma culpinha...
Antigamente, lembro-me bem, ouvia-se falar em alguém que tinha um "conhecido" que poderia trazer uma garrafa de whiskye escocês legítimo. Daonde vinha? Sabe lá Deus! Mas o tal cara trazia e cobrava algum a mais sobre o preço do produto. Não era um meio de vida, porque o crime de contrabando era um crime, punido severamente pela lei. As vezes, ouviamos falar que fulano "foi pego" e tava preso... ou tinha que gastar tudo que ganhou nos últimos anos com advogados nos processos judiciais que enfrentava. Era algo criminoso. Perigoso. Somente os corajosos enfrentavam...
Era?
Ainda é, meu caro. Ainda é... só que a prática cresceu... deixaram rolar, afinal, tinha tanta gente desempregada que seria "um pecado" prender esses jovens destemidos trabalhadores que iam ao Paraguay comprar bugigangas - as vezes, no meio, algo que não era tão bugiganga assim - e trazer para vender e ganhar algum prá se defender na vida. Afinal, o governo tutor não foi capaz de fazer sua parte, proporcionando emprego, saude e educação decentes... então, era cada um por si e Deus por todos...
Quem não se lembra dos VCR Panasonic G9... se não teve um, certamente conheceu algum vizinho que ostentava um junto a sua TV, na sala de estar de suas casa.
Assim, aos "olhos grossos" dos governantes, policiais e todos os envolvidos em reprimir o contrabando, essa praga cresceu. Hoje é um gigante incombatível.
Na febre das bugigangas, vieram os 1,99, famosos por todo o país. Tudo "Made in China", "importado" via Puerto Iguazu ou Ciudade del Este ou sabe-lá-Deus como! Transportado em sacolas gigantescas nos porta-malas de onibus fretados especialmente para grupos que iam fazer suas compras.
Hoje trazem de tudo. E aqui, construiram enormes shopping-centers, carinhosamente chamado de "camelódromos", não porque lá vão encontrar algum espécime desse exótico animal, mas porque lá encontraremos todos os tipos de mercadorias que quisermos, trazidos do exterior, misturados à produtos "made in back yard"... tudo sem nota, sem controle, se garantia legal - só com aquela famosa "la garantia soy jo". Tudo na cara da lei que nada mais pode fazer, pois ela, a lei, ficou pequena e impotente diante do tamanho gigante monstruoso que se criou.
Como que esse monstro se criou e ninguém viu?
Ninguém viu? Pare já com essa miopia...
Claro que todos nós vimos! Aliás, todos nós alimentamo-lo quando ele ainda era um bebezinho... afinal, era apenas um VCR G9, uma garrafa de "red label" ou um vinho "liebfraumilch garrafa azul" que alguém encomendava daquele colega que, trabalhava durante a semana, mas tinha esse hobbie de buscar encomendas de amigos. Quando esse hobbie começou a dar mais lucro do que seu emprego, o tal colega largou seu emprego legal e passou ao comércio ilegal. Olha o monstrinho que era um bebê começar a crescer e engordar.
É claro que muitos se perderam pelo caminho, indo para encomendas mais pesadas... mas isso é outro assunto... e, ainda que seja outro assunto, também foi feito vista grossa, por isso o crime cresceu junto.
Voltanto ao monstrinho... ele cresceu, engordou, e como não tinha alguém que desse educação sadia, ficou um adolescente mal-educado e hoje acha que tem o rei na barriga. Acha?
E agora?
Agora, vemos os comerciantes legalmente estabelecidos pagando pelo crescimento desse monstro que dominou todo o mercado. Esse monstro cresceu e continua crescendo, muito bem alimentado pela população que, empobrecida pela incompetência dos governantes, não conseguiu ter educação digna, emprego formal decente, e hoje faz seus bicos... e se identifica muito com o tal comerciante do camelódromo... aí, porque pagar mais por qualquer produto se lá, encontramos um similar pela metade (ou muito menos) do preço?
Qualidade? ah, isso não é tão importante assim...
Garantia? Lá, vale a palavra do vendedor - "la garantia soy jo"... e olha que vale mesmo...
Legalidade? hummm... isso é muito complicado... porque vou comprar algum produto que tem imposto embutido... prá alimentar o sistema corrupto? Ñão... tô fora... prefiro um preço menor do que qualquer outra vantagem...
E vai por aí afora:
Vai estragar meu CD/Dvd? Vai nada...
Vai durar pouco? Quem se importa... afinal, pelo preço que paguei, dá prá comprar um por mes...
Vai fazer mal prá saude? Será mesmo... óia que não sei não...
Mas... e aquele problema, da loja que vai fechar, da locadora que tá quebrando... ah, se somente eu fizer "certinho", não vai mudar nada mesmo... então, vamo-que-vamo!!!
É... o caminho para o céu é uma estrada estreita e íngreme... já o caminho pro inferno é uma ladeira larga aonde cabe todo mundo...
O mais importante é que CABE NO MEU ORÇAMENTO MENSAL, NO MEU SALÁRIO - afinal somos um pais de pobres e miseráveis.
Não era prá ser assim... não poderia ser assim... as pessoas de bem, educadas, patriotas (será que isso existe ainda) deveria lutar pelo seu pais, um pais melhor, mais honesto e justo... mas não é isso que se vê... é um verdadeiro "cada um por sí e Deus (nem sempre) por todos" literalmente!!!
Você compra em camelódromo?
Você compra produtos importados ilegalmente?
Você compra CDs/Dvds pirateados?
Você se importa com isso???

NEPOTISMO

André Lazzarini
Até quando vamos assistir essa perversão dominar os gabinetes públicos deste pais?
Até quanto teremos que SUSTENTAR esse bando de esposas, esposos, filhos, primos, tios, cunhados, noras, genros e amigos-do-peito, na maioria sem competência para as funções públicas que assumem, usar e abusar de poderes absorvidos de seus pares eleitos legitimamente???
Até quando vamos pagar essa conta?